segunda-feira, 14 de julho de 2008

A primeira vista

Andava sozinho, caminhava sem saber pra onde ir. Ela apareceu. Já estava confuso naquela noite, mil coisas passavam pela cabeça, sem que pudesse administrar, ou sequer perceber meus pensamentos. Ela me olhou fixo e a primeira coisa que me veio, foi que ela tentava me seduzir. Seria coisa da minha cabeça? Não havia uma pessoa sequer na rua. Me perguntei de onde ela tinha vindo e o que estava querendo me dizer com aquele olhar. Ela era diferente do que eu estava acostumado. Muito diferente. Eu estava apaixonado. Como podia estar apaixonado assim? Por uma mulher que não conhecia, não sabia nada sobre ela. Simplesmente nunca a tinha visto antes. Amor a primeira vista. Isso realmente existe? Ela só apareceu e eu me apaixono assim? Quem era ela?
Nos olhamos por mais um tempo. Ela era linda. Eu estava encantado. Não conseguia parar de olhá-la. Estava paralisado.
Depois recomecei a andar. Ela também. Nos cruzamos e continuamos nossos caminhos. O meu, ainda sem destino.

Larissa Fontes

quarta-feira, 2 de julho de 2008

À beira do mar aberto

e te imagino então parado sozinho sobre a faixa interminável de areia, o vento que bate em teu rosto, as mãos com os dedos roxos de frio enfiadas até o fundo dos bolsos, o vento e novamente o vento que bate em teu rosto, esse mesmo que me olha agora, raramente, teu olho bate em mim e logo se desvia, como se em minhas pupilas houvesse uma faca, uma pedra, um gume, teu rosto mais nu que sempre, à beira-mar, com esse vento a bater e a revolver teus cabelos e pensamentos, e eu sem saber o que me revolve agora quando teu olho outra vez escorrega para fora e longe do meu, entre tua testa larga de onde às vezes costumas afastar os cabelos com ambas as mãos, numa mistura de preguiça e sensualidade expostas, e ,quando teu olho se afasta assim, não sei para onde, talvez para esse mesmo lugar onde te encontravas ontem, à beira do mar aberto, onde não penetro, como não te penetro agora, mas é quando a pedra ou faca no fundo do meu olho afasta o teu é que te olho detalhado, e nunca saberás quanto e como já conheço cada milímetro da tua pele, esses vincos cada vez mais fundos circundando as sobrancelhas que se erguem súbitas para depois diluírem-se em pêlos cada vez mais ralos, até a região onde os raspas quase sempre mal, e conheço também esses tocos de pelos duros e secretos, escondidos sob teu lábio inferior, levemente partido ao meio, e tão dissimulado te espio que nunca me percebes assim, te devassando como se através de cada fiapo, de cada poro, pudesse chegar a esse mais de dentro que me escondes sutil, obstinado, através de histórias como essa, do mar, das velhas tias, das iniciações, dos exílios, das prisões, das cicatrizes, e em tudo que me contas pensando, suponho, que é teu jeito de dar-se a mim..

Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Phantom of the opera

Olha nos meus olhos,
esquece o que passou.
Aqui, neste momento:
silêncio e sentimento.

Sou o teu poeta,
eu sou o teu cantor
Teu rei e teu escravo
teu rio e tua estrada.

Vem comigo, meu amado amigo
nessa noite clara de verão

seja sempre meu melhor presente,
seja tudo sempre como és,
é tudo que se quer.

Leve como o vento,
quente como o sol
em paz, na claridade
sem medo e sem saudade.
Livre como o sonho,
alegre como a luz,
desejo e fantasia
em plena harmonia.
Eu sou teu homem,
sou teu pai, teu filho.
Sou aquele que te tem amor,
sou teu padre, teu melhor amigo,
vou contigo seja aonde for
e onde estiver, estou.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

A menina e o passarinho

Ela ainda dormia. Sonhava com alguma coisa tipo um vôo, tinha vento no rosto e a sensação de pés fora do chão. Entre as cortinas de sua janela, já entravam as primeiras frestas da luz da manhã.
Mergulhada naquela sensação de não saber se está dormindo ou acordada, ouvia um canto grave e ao mesmo tempo doce, e acordou com um sorriso no rosto. Olhou pra janela e viu um passarinho pousado no para-peito. Era todo amarelo e tinha algo de diferente. Sua cabecinha miúda estava inclinada e ele parecia olhar pra ela.
Sentou-se na cama e não conseguia tirar os olhos dele. Não sabe quanto tempo ficou assim, até que saiu dele uma cantiga tão serena, como uma de amor. Ela adormeceu de novo. Quando acordou, olhou para a janela e nada tinha no lugar do pequeno pássaro. Ficou parada, tentando entender se aquilo tinha sido um sonho, ou se realmente acontecera.
Passou o dia olhando o céu e tentando ouvir alguma coisa parecida com aquela melodia. Nada mais aconteceu. Dias correram, e uma noite, sonhou com um homem que sorrindo, chegou perto dela e disse: "sempre vou estar aqui pra você". Acordou com um aperto no peito. Ela sabia que nunca tinha o visto antes, mas aqueles olhos pretos tinham um brilho que ela jurou ser familiar.
Ouviu de longe aquela cantiga, fechou os olhos e pediu que esse momento não acabasse, que ele aparecesse, que mostrasse suas asas, que cantasse pra ela, que olhasse pra ela. A cantiga parou. Ela continuou de olhos fechados, dessa vez mais apertados. Sentiu algo em seus pés, e quando abriu os olhos, viu uma florzinha amarela, igual a de seu sonho e quando olhou pra janela, lá estava ele, voando embora de seu quarto. Correu em direção a janela e nada podendo fazer, ficou olhando o pontinho amarelo se perder de vista. Naquela mesma noite, sonhou com o mesmo homem, olhando pra ela, chegando pertinho, sorrindo um sorriso calmo e perguntando: "pq você não me reconhece?".
Ela sempre acreditava que os sonhos queriam dizer alguma coisa e ela quase sempre conseguia achar uma ligação para os seus, mas esse tinha alguma coisa diferente. Quem era aquele homem? E aquele passarinho? Pq essa sensação boa e confusa?
Nos próximos sonhos, ele aparecia declamando poemas pra ela.
No último que ela se lembra, recebia uma carta junto com uma florzinha amarela, escrito, palavras de amor, de amor, de amor, de amor, de encanto.
E no fim,
Ass:
Passarinho

Sua forma de homem já não existia.
Mas ele voltava pra vê-la.
Em forma de passarinho.

Larissa Fontes

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Toda vez que você chega

Só comecei a prestar atenção nisso quando percebi que não eram só aquelas músicas que me faziam lembrar você. Só assim eu parei pra pensar.
Eu sei das suas caras e eu adoro quando você aperta o olho pra falar alguma coisa. Fico as vezes prevendo as suas reações.

Com você eu consigo ir nos extremos das minhas sensações: consigo ser totalmente eu mesma, totalmente aberta e ao mesmo tempo, uma timidez inexplicável toma conta de mim as vezes. O meu coração fica vazio e repleto; vazio, mas beirando uma explosão. Toda vez que você chega.

Larissa Fontes

sábado, 7 de junho de 2008

Clown



O meu coração vive escondido
Por detrás dessa cor, ele permanece
Batendo calado, vestindo um sorriso.

Posso ser eu, se quiser, escancarado
Envolto a magia, não me mostrarei
No meu preto e branco, estou sufocado.


Larissa Fontes
Que vontade de fazer uma coisa errada. O erro é apaixonante. Vou pecar. Vou confessar uma coisa: ás vezes, só por brincadeira, minto. Não sou nada do que vocês pensam. Mas respeito a veracidade: sou pura de pecados. (Clarice Lispector)

ilegais


Desse jeito vão saber de nós dois,
dessa nossa vida
e será uma maldade veloz,
malignas línguas
nossos corpos não conseguem ter paz
em uma distância
nossos olhos são dengosos demais
que não se consolam, clamam fugazes
olhos que se entregam, ilegais

Eu só sei que eu quero você
pertinho de mim,
eu, quero você dentro de mim;
eu, quero você em cima de mim;
eu, quero você

Desse jeito vão saber de nós dois
dessa nossa farra,
e será uma maldade voraz
pura hipocrisia
nossos corpos não conseguem ter paz
em uma distância
nossos olhos são dengosos demais
que não se consolam, clamam fugazes
olhos que se entregam, olhos ilegais

Eu só sei que eu quero você
pertinho de mim
eu, quero você dentro de mim;
eu, quero você em cima de mim;
eu quero você

Vanessa da Mata

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Deixa que eu seja sua; deixa que eu te possua; deixa eu te esperar; deixa que eu sonhe; deixa que eu grite; deixa que eu tenha vergonha; deixa que eu tenha meus pudores; entenda que não pode me entender; deixa que eu seja; não me deixe ser; deixa que eu não seja; deixa que eu vá; não me deixe ir; me segura; me deixa voltar quando quiser; me abraça; deixa que eu te abrace; deixa que eu me contradiga; deixa que eu me complique; não se complique; deixa que eu não entenda; deixa que eu me cale; não me peça pra calar; não insista pra eu falar; deixa que eu suma; deixa..

Beija eu, beija eu, me beija.

Seja eu,
Seja eu,
Deixa que eu seja eu.
E aceita
O que seja seu.
Então deita e aceita eu.

Molha eu,
Seca eu,
Deixa que eu seja o céu
E receba
O que seja seu.
Anoiteça e amanheça eu.

Beija eu,
Beija eu,
Beija eu, me beija.
Deixa
O que seja ser

Então beba e receba
Meu corpo no seu corpo,
Eu no meu corpo,
Deixa,
Eu me deixo
Anoiteça e amanheça


Marisa Monte

Um poema

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto


Paulo Leminski

Harriet

Sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor? Pois se eu me comovia vendo você, pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo, meu Deus, como você me doía vezemquando. Eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma praça, então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta coisa, mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você, sem dizer nada, só olhando e pensando: ah meu Deus, como você me dói vezemquando.


Caio Fernando de Abreu

sexta-feira, 30 de maio de 2008

O Palhaço

Ele trabalhava em meio a cores e sorrisos. Ele era cores e sorrisos. Para os outros. Léo trabalhava num circo como um palhaço e seu trabalho era pintar a cara de uma coisa que ele não era e arrancar sorrisos das pessoas. Foi assim que o conheci. Colorido e sorrindo. Eu tinha acabado de chegar no circo, não conhecia muita gente e passava a maior parte do meu tempo livre lendo no meu trailer ou passeando pelo circo, ansiando uma conversa, um amigo, um amor.
Foi numa dessas caminhadas, que comecei a observá-lo. Ele estava deitado numa rede e tinha uma cara fechada. Não fechada de chateação, mas uma cara retraída, até meio amargurada. Pensei que ele pudesse estar num dia ruim. Até os palhaços tem seus dias ruins, não é? Mas algo mais me chamou atenção nele. Não sei o que. Mas me sentei e continuei observando.
Vi anoitecer, ele entrar e começar a se pintar. Ele saiu de seu trailer com a mesma cara fechada, acho que nem me notou. Saiu com aquela cara triste e só foi entrar no picadeiro para que o seu rosto se iluminasse, mudasse totalmente. Nem parecia a mesma pessoa.
No outro dia, voltei. Sua cara não mudara e não mudou durante a semana inteira. Às vezes o pessoal do circo se juntava pra conversar. Ele sempre estava lá, conversava com um, com outro, mas sempre ia se deitar cedinho.
Não sei por que eu cismei com ele. Talvez pela idéia de alegria que um palhaço me passa. Uma alegria e uma complexidade, percebi depois. Pra mim, antes de conhecer o Léo, os palhaços eram sempre felizes. Todo mundo tem que ser feliz. Por que ele não?
Nunca, em nenhum momento passou pela cabeça das pessoas que viviam com ele no circo, que ele era o Léo, não aquele palhaço. Ele tinha seus sentimentos, tinha suas saudades e suas tristezas. Mas ninguém o conhecia.
Eu olhava pra ele e ficava com vontade de chegar, conversar e depois, sem eu perceber, tive vontade de ser o ouvido para os seus problemas, o ombro amigo, o abraço querido. Comecei a pensar nele.
Nunca tinha me apaixonado, não sabia nem o que era isso. E aquilo estava começando a fugir do meu controle, eu precisava botar pra fora.
Um dia eu sorri pra ele. Ele demorou um pouco, acho que se tocando que era pra ele mesmo e então sorriu de volta. Que sorriso lindo! Sorriso dele. Do Léo, não do palhaço. E pra mim. Esse sorriso me fez andar até e lá e o abraçar. Ele não precisou entender, me abraçou forte e ficamos um tempo assim. Depois nós sentamos e conversamos até anoitecer, chegou a hora do show e eu nunca dancei como naquele dia. Quando ficava na ponta do pé, parecia que eu flutuava. E eu sorria! Um sorriso de quem achou o que sempre esteve procurando. Ele me olhava lá de dentro e eu pude jurar que vi os seus olhos brilhando.
Depois do show continuamos a conversar e fomos até o sol aparecer. Ele falava, falava e parecia que aquilo estava guardado a tanto tempo que eu só conseguia ouvir e olhá-lo e eu podia ficar assim por horas.
Pois é. Ele só precisava de alguém. E eu, mesmo sem saber precisava dele. E foi assim. Como eu me apaixonei. Cuidado com sorrisos.



Larissa Fontes

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Eu sei que vou te amar

(Ele)
Você vai entrar pela porta que eu deixei entreaberta, há uma hora que eu não descolo os olhos da luz de neon do hall que se filtra como um prenúncio da tua chegada. Antes de você chegar você já chega como uma nuvem que vem na frente, antes de você chegar eu ouço tua ansiedade vindo, tua luz, teu som nas ruas, teu coração batendo mais forte porque vai me encontrar... Eu sei que minha presença te fará nervosa, tuas mãos ficam úmidas, sei que você se arrumou melhor para me ver, sabe dos vestidos que eu gosto, botou uma calcinha sexy por via das dúvidas, eu sei que você sabe que eu sei de tudo que você era e que teu único tesouro é o que eu não sei mais... mulher... por isso, teu peito dispara e você vem vindo pela rua sem ar, e você vem e você chega e entra quebrando o realismo da sala, quando você entra muda tudo, a casa fica diferente, as cadeiras se movem, os vasos de rosa voam no ar, as mesas rodam, rodam e eu começo a perder o controle da minha solidão; sozinho eu me seguro, mas você chega e eu danço, pois você sabe de mil truques para me jogar no abismo... você chega e o terrível perigo do Outro se desenha; você é um ponto de interrogação, uma janela aberta para o ar, um copo de veneno, você é o meu medo, o mar fica em ressaca, fi co à beira do riso e das lágrimas, perto do céu e perto do crime, um relógio de briga começa a contar os segundos da luta, uma multidão de fantasmas de terno e gravata me assiste com o coração sangrando, perco o controle e entramos os dois num barco em alto-mar, à deriva...


(Ela)
Você me chamou por telefone. Não te vejo há três meses... seis anos juntos e agora sem te ver... pela tua voz no telefone sei que você está controlando uma emoção, querendo bancar o homem seguro de si... e fico desesperada porque mesmo assim você consegue fingir solidez e eu... e eu... ao ouvir tua voz, o mundo se acalma... tudo estava rodando e se acalma, minha casa estava cheia de perigos, as facas, os garfos me ameaçavam das gavetas, as agulhas, os remédios envenenados, os mosquitos e bichos voando nas janelas querendo me atacar e tua voz vem calma no telefone e eu sei que é mentira que você vive em pânico mas eu fico toda emocionada, fico toda menina, toda protegida com o falso tom de bondade sórdida que tua pose de homem prático assume... e tua voz vem do mundo dos altos, dos fortes, e eu, mesmo sabendo dos perigos que esta paz me oferece, me arrumei toda para vir aqui ver você... penteei os cabelos negros que você ama, me pintei e então... tudo que se movia na casa se acalmou...


Eu sei que vou te amar, Arnaldo Jabor

terça-feira, 25 de março de 2008

As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regularmentos vários.

Eu te amo porque não amo
o bastante ou demais a mim.
Porque amor amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade