sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Onírico


"Veio num sonho, certa noite. Ela o amava. Ele a amava também. E ainda que essa coisa, o amor, fosse complicada demais para compreender e detalhar nas maneiras tortuosas como acontece, naquele momento em que acontecia dentro do sonho, era simples. Boa, fácil, assim era. Ela gostava de estar com ele, ele gostava de estar com ela. Isso era tudo. Dormiam juntos, no sonho, porque era bom para um e para outro estarem assim juntos, naquele outro espaço. Não vinha nada de fora, nem ninguém. Deitada nua no ombro também nu dele, não havia fatos. Dormiam juntos, apenas. Isso era limpo e nítido no sonho que ela sonhou aquela noite.

Deitada no ombro dele, ela via seu rosto muito próximo. Esse era o sonho, nada mais. E isso, mais tarde saberia, era o único fato do sonho inteiro: via o rosto dele muito próximo. Como um astronauta prestes a desembarcar veria a face da lua, mal reconhecendo o Mar da Serenidade perdido em poeira cinza, assim ela o via naquela proximidade excessiva, quase inumana de tão próxima. Fechasse os olhos - mas não os fecharia, pois já estava dormindo - guardaria contra as pálpebras cerradas um por um dos traços dele. (...)
Coisas assim, ela via. E de olhos abertos, embora fechados, pois sonhava, protegia-o, protegiam-se no meio da noite. Tão simples, tão claro. E de alguma forma inequívoca, para sempre. Talvez ele tivesse passado um dos braços em torno da cintura dela, quem sabe ela houvesse deitado uma das mãos sobre o ombro dele, erguendo os dedos até que tocassem no lóculo de sua orelha. Em todos os dias que se seguiram à noite daquele sonho, e foram muitos, honestamente não saberia localizar outros detalhes. Pois enquanto dormia, naquela noite, tudo era só e apenasmente isso: dormiam juntos."

Caio Fernando Abreu

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Sobre um caminho de grama amassada e todas as coisas bonitas

Hoje no comecinho da manhã, me deitei em meio à grama do jardim e comecei a olhar o céu. Costumo fazer isso desde pequena. Ficar descobrindo os desenhos nas nuvens. Em meio a toda uma história que já começava a surgir, olhei pro lado. No canto do jardim, ainda no encalço da estradinha que leva pra casa de madeira lá atrás no quintal. O caminho de todo dia da tua bicicleta verde. Um caminho fino de grama amassada.
Fiquei olhando aquilo e enquanto o meu olhar percorria aquele caminho, parecia que eu te via ir embora. Ir embora indo na cidade comprar alguma coisa, voltando sempre com flores coloridas pra mim. Flores que não vinham embaladas como as que se compram. Vinham com seus caules meio machucadinhos, do aperto de mãos. Mãos que as colhiam no caminho. Que ao meio iam parando várias vezes, parando com intenção de ver um sorriso quando aquelas flores chegassem ao seu destino.
E eu sorrindo toda. Toda sorrisos! Meus olhos, minhas mãos, meu andar, minha boca. Toda sorrisos!
Imaginava um rosto apaixonada e dedicado, parando a todo momento que enxergava uma flor bonita no caminho.
E parecia que você tinha saído há anos. Tinha saído e não mais tinha voltado em cima daquela bicicleta verde e segurando meio desajeitado um ramalhete de flores coloridas de caule machucado, por tanto tempo.
Senti o peito me apertar, o olho marejar.
Logo um barulho de ferro tombando em buracos surgiu. E ao levantar a cabeça, ainda deitada na grama, vi a velha bicicleta verde e você em cima dela, tão meu. Alí sim estava o céu, as nuvens, os jardins, as flores, as músicas mais bonitas. Alí morava todas as coisas bonitas que resolveram se juntar em forma de sorriso. Ali!

Larissa Fontes

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Um lenço, uma caneca e um colar caídos do céu.

"E no sonho ele me disse que vai vir. Voando! E vai jogar lá de cima presentes pra mim. Lenços com cheiro de alecrim, que pode até ficar enganchado em alguma árvore, me dando um trabalhão para tirar com a vara de pegar cajú; uma caneca branca que cairá tão sutilmente que não quebrará; um colar de couro com um pingente de metal envelhecido, que eu colocarei no pescoço e não tirarei, mas ficará por debaixo do meu vestido, pra que os meus irmãos não vejam e não tirem sarro de mim.
Ele virá, e eu esperarei sonhando com seu rosto que eu ainda não conheço. Mas ele virá, meu Deus. Ele virá!"

Larissa Fontes

(Inspirado no conto "Tangerine Girl", de Rachel de Queiroz)


sábado, 7 de fevereiro de 2009

Entre os estilhaços das taças quebradas


Três meses sem se ver depois de seis anos juntos. Porta entreaberta. Espera nervosa e olhos que não se descolam da entrada. Sala escura, cortinas fechadas. Olhos encharcados de álcool e incomodados com a luz. Champagne. Poesia, Chico Buarque no rádio. Pensamentos indecentes, obscenos. Raiva e amor, rancor e desejo.

Três meses sem se ver depois de seis anos juntos. Caminhar medroso, tenso. Ansiedade e mãos geladas. Ruas movimentadas, tempo fechado. Olhos azuis com prenúncios de lágrimas, vontade de voltar atrás. Cigarro. Música no bar da esquina. Pensamentos indecentes, obscenos. Raiva e amor, rancor e desejo.

Enfim chega.

Encontra a porta entreaberta. Empurra-a e fica um tempo parada, encarando-o. Dá pra ver que está uma merda por dentro, mas faz questão de fingir uma solidez que uma mulher forte teria. Mas ela não é boa em fingimentos, por isso está com uma cara que crê esboçar tudo o que sente.
Ele se levanta e de repente todos os pensamentos indecentes e obscenos que pairavam em sua cabeça somem e ele emudece. É covardia. Ela está cada vez mais bonita, só porque não é mais sua, e isso é difícil de agüentar. Linda e livre.

Silêncio. Agora Vinícius do rádio. “E por falar em saudade... onde anda você?”
Tudo some e ele vai até ela. Ela ainda receia, mas logo se entrega ao seu abraço. Beijos e abraços desesperados, com força. Taças de champagne. Risos. Se amam.

Realidade volta à tona. Agora se olham, se odeiam, se machucam com a mesma força que se amaram há alguns minutos. Gritos. Mágoa e rancor. Taças quebradas. Cortes e sangue.

Ela vai embora batendo a porta. Ele chora deitado no chão entre os estilhaços das taças quebradas.

E estão prontos para uma próxima vez.

Larissa Fontes

Baseado na música 'Blue Eyes' de Júnior Almeida. Não sei o que me dá quando a escuto.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Entre páginas de um grosso livro de contos.


"Acho que posso descrever essa freqüente sensação que me agora me vêm: dor misturada com a culpa de ser eu a autora de todas essas histórias que se fizeram ao longo desse 'meu' tempo."

Reconheceu em pensamento, compenetrada em um livro de contos que segurava, entre uma página que esses pensamentos a fizeram voltar e ler de novo.


Larissa Fontes

"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida."

Vinícius de Moraes


"Abra sua camisa e saia para o grande encontro!", ainda dizia Vinícius. Sim, saia para o encontro, mas não procure por ele. Ele o encontrará, ou se fará perceber, caso aconteça de o encontro já ter acontecido e você não perceba, então se dá um novo encontro.
Tantas pessoas andam por aí atrás de qualquer coisa, mesmo que nem saibam o que querem. Não! O encontro os encontrará.
Saravá, Vinícius de Moraes! Saravá!


Larissa Fontes

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Sobre janelas, insetos e um mundo agora diferente


Houve um tempo em que se deixavam as janelas abertas. “Que entre toda a luz e todo o ar do mundo”. Acordava com o mundo nas costas e disposto a carregar essa carga. Porque no mundo, tinha ela. Formigas, borboletas, todos os insetos que existiam na fauna moravam em seu estômago e davam de fazer festa toda vez em que ela se punha ao alcance da sua visão. Sentia o coração pequeno e apertado enquanto caminhava em sua direção. E aquele momento era o mais onírico que tivesse memória, total “slow motion”. Vê-la vindo com aquele sorriso sem mostrar os dentes, um andar meio vago e desajeitado, sem saber onde pôr as mãos. Quando vinha o abraço de costume, a palavra ”costume” perdia o sentido.
O tempo agora é que andava em câmera lenta. As janelas não mais escancaradas, e sim emperradas por falta de uso. Todos os insetos que moravam em seu corpo, foram postos pra fora por um grande dilúvio que enchera por dentro e esborrava pelos dois pequenos e puxados olhos. No mundo, ainda tinha ela. Mas não mais em seu mundo.


Larissa Fontes

domingo, 25 de janeiro de 2009

Pôr-do-sol na Barra de São Miguel, 25/01/09

E é como se nunca nada tivesse feito mal, nem levado nada que sempre foi bom. É tudo tão meu, tão "sempreexistiu,nuncafoiembora". Sensação de aqui é o meu lugar, de alguma coisa querendo sempre transpor em palavras tudo que pula e grita aqui no lado de dentro. Gritam e pulam de felicidade, de contentamento, de orgulho de merecer cada olhar que transborda um amor totalmente explícito pra quem quer que veja. O que será aque há além de tudo isso? De todo esse mundo que estamos vivendo? Porque eu não enxergo nada além. Nada além.

Larissa Fontes

terça-feira, 20 de janeiro de 2009


Será como andar por entre vocês,
sentindo tudo que dizem em forma de perfume;
Deitar ao lado, apenas fechar os olhos
e pensar alto e forte em alguém.
Sentir vindo junto com esse perfume
um amor que só exale verdade
e um olhar único, que passe certeza.
Pra depois vir o abraço,
único
que se encaixe como nada mais no mundo;
Mãos que se entrelaçam
e mais que isso:
se amam.



Larissa Fontes

Flores em Gramado, Dezembro de 2008

domingo, 18 de janeiro de 2009

O amor por entre o verde


"E é então que esqueço de tudo e vou olhar nos olhos de minha bem-amada como se nunca a tivesse visto antes. É ela, Deus do céu, é ela! Como a encontrei, não sei. Como chegou até aqui, não vi. Mas é ela, eu sei que é ela porque há um rastro de luz quando ela passa; e quando ela me abre os braços eu me crucifico neles banhado em lágrimas de ternura; e sei que mataria friamente quem quer que lhe causasse dano; e gostaria que morrêssemos juntos e fôssemos enterrados de mãos dadas, e nossos olhos indecomponíveis ficassem para sempre abertos mirando muito além das estrelas."

Vinícius de Moraes


domingo, 11 de janeiro de 2009

preta e a chuva

"Será que hoje vai chover? Você tem medo da chuva, menina? Mas por quê? É por causa daqueles barulhos que de vez em quando vem acompanhando ela? Não se assuste, preta. É porque você nunca olhou, mas na maioria das vezes, vem também uma claridão tão forte e bonita. Eu acho que esse barulho é de tão forte que é a luz que vai descendo do céu, sabia?

Olha! Ta ouvindo? Acho que começou a chover...

Vamo na janela olhar, vamo? Eu pego na sua mão. Te acalento... posso cantar pra você dormir também. É tão bom dormir com o barulhinho da chuva batendo na janela. Eu sempre deito encostado na janela, fico vendo os pingos se encontrando, se fazendo um só e descendo como se tivesse dançando. É bonito, preta.

Um dia eu já senti uma tristezinha com a chuva. Ela tem mesmo alguma coisa de um pouco triste, né? Lembra uma pessoa chorando. Será que chove toda vez que alguém que a gente ama vai embora? Será que chove toda vez que alguém se separa de outro alguém quando ainda existe amor? Será que chove de tanta tristeza? Ou mesmo de muita felicidade? Quando duas pessoas se beijam com muito amor? Quando se vê quem se ama voltar? Ou mesmo quando uma criança sorri, dá um gritinho de felicidade? Eeeita! Hahaha, assim nunca ia parar de chover, né?

Vamo, vamo lá na janela. Isso, vê como é bonito, preta."

(Pega a mão dela, dá um beijo e só segura... um sorriso brota no rosto dela. E a chuva lá fora canta, canta.)


Larissa Fontes

sábado, 10 de janeiro de 2009

Ladeirinha


"Aquela ladeirinha era dela. Aquela janela era minha. Todo finzinho de tarde, eu vinha quase sonhando com aquele momento, me debruçava na janela e nem esperava muito, lá vinha ela. Linda, quase sempre de vermelho. Podia vir de preto, de amarelo, verde, azul. Era linda de qualquer jeito."

Larissa Fontes



"Quase a noitinha ela desce a ladeirinha que faz lado com o meu quintal.."
(Djavan)

domingo, 4 de janeiro de 2009



E quando eu olho uma foto tua, parece que você me olha e aí...



...sinto aquele negocio.


sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

?


Você é assim, você vem e você chega. Eu sei de tudo, quase tudo, e o que me dói é o que não sei mais. Não é saudade, não é carência, não é qualquer sentimento que sinta falta; não é simples, também não vejo nada do que tem você, ser simples. Sempre cuidadoso, sempre aquele você. Sempre diferente, se tratando de. Tanta coisa a rondar, um misto de tantas coisas juntas, que a vontade é jogar todas fora. Tô começando a deixar os dedos tomarem vida própria. Que se faça uma ligação direta entre coração-cabeça-dedos, e que escrevam! Escrevam, pois é disso que os sentimentos precisam, pois é assim que eles se acalmam, ao se ler posto pra fora. Tentando se organizar, se confudem mais e fica difícil a vontade sequer de entendê-los. Entender-te, entender-me.. Seus olhos as vezes são aqueles meus ainda, outras vezes não. O coração é o mesmo, aquele mesmo meu de sempre, embora fantasiado e vestido de mágoa, de raiva, de sentimento ruim... O tempo é que é meu. Mentira! Nunca foi. Ele nem é meu amigo. É raro o momento de afinidade com ele. Ainda falo do tempo. Isso aqui tá ficando Clarice. Que fique, que fique. Eu sou Clarice. Sou Vinícius. Sou Caio. Sou eu. Eu misturada em todos aqueles que me fazem sentir palavras que eu gostaria de ter escrito. Que me fazem conhecer-me. Conhecer eles próprios. Sinto que conheço cada um, tenho uma relação com cada um deles. Uma relação de amor. Um caso de amor. É isso que estou fazendo dessa minha noite vazia. Escrever. Fazendo isso virar um refúgio, escrevendo pra fugir mesmo. Será que depois quando ler, tudo fica mais claro? Mais fácil pra eu mesma digerir. Eu não acredito em nada do que você diz. Leia isso no meio de tanta coisa que não é pra você. Leia e vai entender. Pq a semente da dúvida já foi plantada e foi você mesmo quem o fez. Plantou e deixou que crescesse. Até regou, deu sol e deu sombra quando precisou. E ela cresceu. Não quero entender nada, muita coisa aqui nem é pra você, nesse texto aqui mesmo. Não sei nem como foi que comecei isso aqui. Só a partir de alguma linha, a ligação coração-cabeça-dedos acabou de sintonizar com você. Então é isso. Não entendo música, não entendo música, nem luz, nem defino amor, se você quer saber. Sei de todas as minhas sensações, sei de tudo que senti, o que não sei é o que vem por aí. Tudo é tão errático quanto a gente faz. Se tudo for feito com um propósito, ou talvez nem propósito seja a palavra certa, digamos que com um único objetivo. Ainda não sei se se encaixa aqui. Mas enfim, se tudo for feito com o único objetivo de tocar alguém. Tocar de um jeito que era o teu, ainda. Aquele jeito que me mostrou ser. Acho que prefiro aquele jeito. Mesmo que não seja esse o seu jeito de verdade. Não quero estrutura de poesia pra falar em desabafo. Não quero que nada do que eu sinta seja ou tenha mágoa. Ou dúvida. Que saia de mim! Tem muita coisa pior do que a dúvida, mas ela é judiadora, poxa vida. Não quero ser poética ao dizer que você não é quem eu pensei. Mas que vai continuar sendo, pois eu sei fantasiar. Fantasiar. E não viver uma fantasia. Viver à base disso, não! Então que continue com essa luz, que não tem como ser fantasia. Você se veste nela, é a sua vestimenta, sua cápsula, é de luz que você é envolto. Que essa luz nunca se apague, como falhou pra mim. A porta está entreaberta, mesmo que nela não entre mais luz. Só isso que se dirige a você. Cabe entender ou não. Mas sei que vai. Não ligo de ser sincera, não agora, pense o que quiser, pq eu penso o que eu quero e isso é inconstante e me faz incapaz de impedir. Que vontade de apagar isso tudo, dá. Mas engulo e vai pro lado de dentro.

Não mais ou menos


Queimando alguma coisa aqui. Daquelas sensações que quando me vêm, eu paro e tento sentir mais. Mesmo que ruim, mesmo que acompanhada de um mal estar, de uma tontura, sabe? Pq eu não sei. Olha, eu não sei mais o que falar e nem quero mais. Não quero muita coisa. Quero menos. Quero mais ou menos. NÃO!