terça-feira, 16 de setembro de 2008

A quem interessar possa


Me recuso a continuar. Ninguém sofrerá por mim sem mim chorar. Ninguém entende, nem precisa. Nem você, nem eu. O anel que tu me deste sobre a folha que me contém sem compreender. Sem compreender que você carrega toda uma culpa milenar e imperdoável, a história como concreto sobre os teusmeusnossos ombros.

Lentamente a mão do anel que eu te dei, e era vidro. Depois ri, ri muito, ri bêbado, ri louco, ri ate te surpreenderes com a tua não dor, até te surpreenderes com não me ver nunca mais e com a desimportancia absoluta de não me ver nunca mais e com minha mão nos teus cabelos, distante, invisível, intocada no vento.

Caio F. Abreu

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Tempo, tempo, tempo.


"Ouve bem o que te digo."

Deveríamos fazer um acordo. Tu deixava que eu te voltasse por um instante, pra que eu fizesse aquilo que deixei de fazer.

Aquele instante em que eu abri a boca, mas deixei de falar; Em que eu quase cheguei a levantar os braços querendo um abraço, mas recuei; Pelo telefonema que eu pensei em dar, mas desisti... Já tô pedindo demais, então antes que me peças pra escolher, quero aquele instante em que pensei em agarrar com força aquela mão e não agarrei.

Larissa Fontes

"
O que usaremos pra isso, fica guardado em sigilo. Compositor de destinos, tambor de todos os ritmos: tempo, tempo, tempo, tempo, entro num acordo contigo.." (Oração ao Tempo, Caetano Veloso)

Destino


Ele é o responsável pelos aviões perdidos, pelos atrasos, pelos encontros inesperados, até pelos desencontros. É o responsável por toda a felicidade conseguida, e até pelas tristezas indesejávelmente encontradas.

Larissa Fontes

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Os sentidos sentindo saudade


O cheiro da gasolina, do asfalto

Gosto de ansiedade, de coração acelerado
A "pré" visão de um rosto
A volta de uma voz conhecida
O toque de mãos que se sabem cúmplices
A textura das peles se tocando em um abraço
Um grito de felicidade abafado
Uma explosão de cores e flores ao vê-lo.

Larissa Fontes

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

No abraço


Você vai descer daquele carro, sei que vai me procurar e vai me ver ainda da janela. Vai vir na minha direção (nessa hora você já abriu aquele sorriso). Eu já posso sentir a quentura do meu rosto se ruborizando e o meu coração batendo louco no meu peito. Você chega mais perto e eu vejo aquele brilho nos seus olhos, aquele que eu via claramente toda vez que a gente se encontrava nos meus sonhos. Chega mais perto ainda, agora eu posso sentir o calor do teu corpo. A gente se abraça. Agora eu posso sentir o teu coração batendo no meu peito. Nossos corações batem juntos, porque estão o mais próximo que dois corações podem estar. O que sinto é uma vontade de não te largar mais, de sentir teu coração bater junto com o meu todo o tempo de vida. Uma sensação de estar totalmente no lugar onde eu queria estar: no teu abraço.

Larissa Fontes

domingo, 7 de setembro de 2008

Moça,


Te vejo passar todos os dias e, quando a senhora passa, os meus olhos te seguem até se perder de vista. Tenho vontade de ir atrás e ver aonde mora, pra que eu possa me sentar na frente da sua casa e ficar ansiosamente esperando pra vê-la sair e se fosse possível, se tivesse uma janela pra eu ficar olhando quando de vez enquando a senhora passasse por ela. Eu podia ficar o dia inteiro olhando pra ela. Ah! eu não tiraria os olhos.

As vezes a senhora passa apressada, quase correndo. Fico imaginando pra onde a senhora vai com toda aquela pressa, se tem alguém a esperando... Queria que fosse eu. Outras vezes passa serena, meio distraída, olhando pros lados, pras vitrines e até o céu a senhora olha. Eu queria poder acompanhá-la, participar da sua calma, ou até merecer o seu olhar.
Não vi um anél no dedo da senhora, isso fez com que eu sonhasse mais ainda. Mas eu só posso sonhar, porque sei que nunca a senhora olharia pra um homem como eu, antigamente poderia até olhar, eu era um homem muito melhor, por isso não posso nem dizer quem sou, senão a senhora nem leria nada que eu lhe escrevesse. Então me contento em ficar imaginando que a que as minhas palavras pelo menos lhe arrancam um sorriso.
Quando a senhora passa vestida de vermelho, parece um flor. Lembro cada detalhe da primeira vez em que a vi dessa cor. O casaco parecia ter sido feito em medida pra senhora, pois combinava com seus lábios. Fiquei com vontade de oferecer-lhe a mais vermelha das rosas, mas logo depois dessa vontade, eu me vejo refletido no vidro de uma loja e...
Só posso ficar aqui e desejar que as horas passem mais depressa pra que a senhora venha para me alegrar. Só de passar. Correndo. Porque tem alguém te esperando.

Larissa Fontes

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Uma noite de cara-enfiada-no-travesseiro


Ei, espera! Eu ainda tenho muito o que te falar. Aparentemente eu sou assim, meio "caradepoucosamigos", mas na verdade o que eu sinto só eu sei. Não falo pra ninguém porque eu tenho medo, cara. Sei que você não entende, nem garanto que saia daqui entendendo melhor alguma coisa. Mas agora eu preciso falar, não se levanta daí, por favor. Pede outra cerveja, tenta engolir sem pressa de me ver pelas costas. Eu sei que ela pode esquentar, mas não vamos pensar apenas nas coisas práticas e banais. Te chamei aqui nem sei porquê, já está me dando aquela coisa na cabeça, aquela coisa que quando me dá eu não consigo ornanizar nada, então saem essas coisas desesperadas, provavelmente incompreensíveis que eu tô falando. Me desculpa, cara, mas não se levanta, não sai pela porta desse bar, eu não sei se aguento outra cena assim, fica sentado, não precisa nem olhar pra mim se não quiser, mas me escuta. Você pode ficar calado também, pode fingir que não tá escutando, mas deixa que eu continue.
Como foi que a gente deixou chegar nesse ponto? Eu tô aqui, bebendo feito uma louca, tentando me explicar por coisas que eu nem sei, por coisas que não aconteceram só por minha culpa. No dia em que você foi embora, eu fiquei te esperando voltar pela porta que você mesmo deixou aberta, porque eu nem mesmo me dei ao trabalho de tirar a cara enfiada no travesseiro e ir fechá-la, de tomar coragem pra andar pela casa até a porta e ver que estava tudo no lugar, menos você.
Não queria levantar daquela cama, pra ver se dormia, se esquecia que eu poderia ter feito isso na hora, ter te pedido pra ficar, trancado a porta e jogado a chave pela janela, ter te amarrado até que eu soubesse o que fazer, o que dizer. Queria esquecer que eu só enfiei a cara nesse maldito travesseiro pra não te ver indo embora. Gritei pro travesseiro pra não ouvir você batendo a porta, o carro saindo.
Não queria ter que abrir os olhos e ver que os teus sapatos estavam ainda debaixo da cama porque você saiu com tanto desespero que nem se calçou. Não queria ver a toalha molhada que você deixou na ponta da cama. Não queria não ver teu carro na garagem na hora do almoço. Não queria ver que já estava na metade da manhã e você não tinha me ligado do trabalho pra dizer que não me acordou porque eu estava paracendo um anjo e dizer que agora estava tudo bem, que tinha sido só mais uma das milhões de discussões idiotas e normais. Não queria entrar na cozinha e não ver a tua chícara suja de café em cima da pia e que a nossa plantinha na sala estava seca. Não queria ver a minha cara inchada pela alcançada quase falta de lágrimas, resultado de uma noite inteira de cara-enfiada-no-travesseiro.
Não queria, não queria nada disso. Mas levantei e até tentei não perceber isso tudo. Tentei até ver um filme. Mas depois de um "Eu não vou embora por que eu prefiro estar aqui, brigando com você do que estar fazendo amor com qualquer outra pessoa" do filhadaputa do garoto de programa que se apaixona pela cliente e de mais duas intermináveis horas naquele apartamento que tinha se tornado além de enorme, totalmente vazio, escuro e frio, não consegui mais. Peguei o carro e sai dirigindo. E bebendo. No começo não sabia onde ir e nem o que fazer. Mas eu precisava te ver e eu sabia que ia te encontrar aqui. Queria só te ver, só passar e ver como estava a sua cara depois de tudo, mas aí eu te vi aqui sentado sozinho, quase cheguei a ver lágrimas nos teus olhos e eu tive que vir aqui, foi quase involuntáriamente. E ainda é involuntáriamente que essas coisas estão saindo de mim..

Larissa Fontes

Sobre estar só..


Palavras de quase amor eram faladas.. Pra quem? Pobre rapaz..


quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Passarinho


quando chegar lá, passarinho
com teu cheiro forte e doce
avisa a esse céu que eu a ele pertenço, cada pedacinho

diz que todo mundo tem um pouco de solidão
mas essa de que se vale a pena ser dono
cada partezinha, por mais miúda, anseia por aquela emoção

que arde como brasa na fogueira,
que voa como tu, quando bate asas e se entrega.
coração que permanece batendo acelerado por noites inteiras

ao lembrar do teu olhar, passarinho
do teu canto sereno e tua cor de sol
que explode tudo aqui dentro esperando tua chegada, passarinho.


Larissa Fontes

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Quem irá os proteger?


Eles viviam separados. Em cidades diferentes, quero dizer. Muita coisa era diferente neles, mas por mais diferenças que existissem, no fim ficavam quase invisíveis. Eles riam ao mesmo tempo, por mais longe que estivessem, não importa a que distância. Quando conversavam, as palavras muito mais escritas do que faladas, dançavam. Tinham leveza, pureza. Não vou começar dizendo que foi amor à priveira vista, só pra ficar mais romântico, por que não foi. Na primeira vez em que se encontraram, não sei se realmente se encontraram, porque nem se notaram. Na segunda vez, posso dizer que eles sentiram algo quando se viram. Se olharam, sorriram. Se cumprimentaram. Se olharam mais. Só. Aconteceram mais coisas, mas isso só eles sabem, porque aconteceu dentro de cada um. Da próxima vez foi só um pouquinho diferente, eles se olharam mais e mais demoradamente. Alí claramente tinha alguma coisa. Alguma coisa escondida, que mais dia, menos dia, ia aparecer mesmo sem querer. Por si só. E apareceu. Aquilo era quase o amor. Pensamentos bonitos. Sonhos gostosos. E eles riam ao mesmo tempo, por mais longe que estivessem, não importa a que distância.


Larissa Fontes

sábado, 23 de agosto de 2008

Pensando


as vezes fico ali parado
pensando no acaso
que aconteceu no meu velho passado

eu ao sereno pensando
a cada passo
a cada lugar onde eu chegarei pensando

Larissa Fontes
1999 (aos nove anos)

Voltar


meu sonho
de voltar
para o lugar dos meus sonhos

onde eu possa sonhar
que algum dia, ao voltar
pensar que já estive
nesse lugar.

Larissa Fontes
1999 (aos nove anos)

O mar


ao longe vejo o mar
e eu querendo chegar
a esse lugar
onde chamam mar
eu a chorar
eu a cantar
eu a pular
eu a respirar
eu a me desesperar
eu a fazer isso tudo por causa desse lugar onde chamam mar.

Larissa Fontes
1999 (aos nove anos)

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Pequenas Epifanias


Dois ou três almoços, uns silêncios.
Fragmentos disso que chamamos de “minha vida’:
Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus — enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector — Tentação — na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.
Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

O Estado de S. Paulo, 22/4/1986


Caio Fernando de Abreu

Monólogo de Orfeu

Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa o meu peito em soluços
Te enrustiste em minha vida
E cada hora que passa é mais por quê te amar
A hora derrama o seu óleo de amor em mim, amada
E sabes de uma coisa?
Cada vez que o sofrimento vem,
Essa saudade de estar perto, se longe
Ou estar mais perto, se perto

O que é que eu sei?
Essa agonia de viver fraco, o peito extravasado, o mel correndo
Essa incapacidade de me sentir mais eu, Orfeu
Tudo isso que é bem capaz de confundir o espírito de um homem
Nada disso tem importância quando tu chegas com essa charla antiga,
Esse contentamento, essa harmonia e esse corpo!
E falas essas coisas que me dão essa força, essa coragem, esse orgulho de rei
Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim!
Sem ti sou nada, sou coisa sem razão, jogada
Sou pedra rolada.
Orfeu menos Eurícide,
Coisa incompreensível!

A existência sem ti é como olhar para um relógio só com o ponteiro dos minutos
Tu és a hora, és o que dá sentido e direção ao tempo, minha amiga mais querida!
Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões, amada!
Ah, criatura!
Quem poderia pensar que Orfeu,
Orfeu, cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala como o vento a flor, despetala as mulheres
Que ele, Orfeu, ficasse assim, rendido aos teus encantos!

Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo no pensamento
E aqui me deixo rente, quando voltares pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida, que eu estarei contigo!

Vinícius de Moraes