terça-feira, 2 de junho de 2009

Sobre medo de gatos, uma seta e um alvo


Ela nunca gostou de gatos. Tinha medo. Não achava-os confiáveis. 'Aqueles olhos de quem vai devorar alguém'. Como uns que ela conhecia. E sonhava com eles. Com os gatos, quero dizer. Um branco. Era um sítio, depois uma festa. Uma festa num sítio. Havia um gato branco e ele a olhava. Como se sentisse o medo que ela lhe devotava, parecia enfrentá-la, provocá-la. Ela, ingênua, não conseguia manter o olhar desviado, sempre o voltava para aquela direção. Aquilo bicho pequeno, de que forma a faria mal? 'Olha o teu tamanho, olha o dele!'. Ele ainda a enfrentava. Ela preferiu se retirar. Foi andando com uma angústia que sabia que o alimentava. Corria, subia no parquinho das crianças. Ele a seguia. Um medo agora a invadia. Pavor. Correu mais. Entrou num salão de festas, na primeira porta entrou. Antes de fechá-la, ele conseguiu entrar. Nesse pulo, acordou. Outra vez sonhou também. Uma vez era normal. Mas de novo aquele gato branco? Aquele olhar. Aqueles olhos parecidos com...
Tinha o todo. Não mais bastava só metade, como antes já tinha chegado a querer. Havia muito. Tinha tanto amor no peito, podia explodir a qualquer momento. Os labirintos não mais a faziam se perder. Tinha achado o alvo. Seu alvo. Era a seta, antes perdida, agora em seu alvo certo. Um no outro. Seta e o alvo. Juntos. Não existiam medos. Nem os gatos a afligiam mais. Quer dizer, não tenho certeza disso. Eles não são confiáveis, já disse isso. Aqueles olhos... As portas estão todas escancaradas. Outras fechadas, trancadas, lógico. Mas as que realmente podem suportar o peso do que pode passar por si, sim, essas estão abertas! E entra tanta coisa linda, leve. Uma, a mais clara de todas, dá para um caminho. Uma estrada. Flores nos canteiros. Onde vai dar? Não sei. 'Me diz qual é a graça de já saber o fim da estrada, quando se parte rumo ao nada?'.

Olhe pro infinito, tire os pés da terra, respire, perca o ar. Ame!

Larissa Fontes


Ao som de 'A Seta e o Alvo', do Paulinho Moska.

16 comentários:

Vitor Andrade disse...

simples seja amar. e viver. e viver e amar.
eu gosto muito da subjetividade que vc tem. sempre leio atento, pois cada detalhe é unico. a historia sempre caminha num rumo certo.
ah! sou seu fã, logo, suspeito!
hauahaushauhsua

um beijo, laricota!

Tamires . disse...

Lare!
Tirei os pés da terra... os meus acho que já estão virados pro ar mesmo. Eu gosto de gatos, sabe? Tenho um preto, que é minha coisa linda.

Mas ainda não tenho um alvo:/

...
Flor, voltando, eu me surpreendo cada vez mais qdo volto aqui. Me ensina a fazer bonito assim?

Outros beijos, aos montes!

Fabio Machado disse...

Aprendi a te ler, atingi um alvo, entre o som do maculelê e do findo salvo.
Danço o jogo, jogo a luta. O peito nu encara a arte, o pé descalço a contraparte.
Aprendi e me ler, acertei a mira, entre o dom de você e da minha lira.
Canto o toque, toco a música. A alma jovem abraça a idade, o espírito puro a eternidade.

E assim a gente é livre, certo Larissa ? rs

Fica bem !

Beijos.

Guilherme Ramos disse...

Tem um "q" de Bianca Ramoneda, esse texto. Rsss...
Olha, menina, vc vai longe, hein?
E isso é BOM!
Bjo!

Salve Jorge disse...

Um gato
Branco
Olhar franco
Na malícia
Criatura propícia
De fato
Aos labirintos
Então apertar os cintos
Parece sensato
Mas minto
Se não digo que vicia
Lapidar um tato
Arriscar um trato
Nesse mares de delícia
Ah, mar
Infinito a chamar...

"Ao infinito e além.." Buzz Lightyear

disse...

nossa, adorei esse texto

Cinema Macadâmia disse...

Pois é, toda graça e desgraça está na dúvida

eu, vanessa. disse...

Ai que ódio eu também tenho de gatos! Criaturinhas mais malévolas essas... odeio, odeio.


Beijo
:*

Fernando Costa disse...

Bem Legal, sua tecnica de escrever aliado a sua grande criatividade é muito show. Acho o Maximooooooo.
Os gatos foram me prendendo e no final ouvi bem a liberdade do amor.

- Adorei!

Beijo neste teu coraçao do bem que eu adoro.

Thiago Assis disse...

Nao conheço o Caio Fernando Abreu... ainda, mas vou ver se leio algo dele =]

Eu nao gosto de gatos, nao ia aguentar sonhar repetidas vezes com eles Oo uhauhauhuhauhauhauha

Hey, lindas palavras no fim do texto. Belissimas, por sinal.


www.thiagogaru.blogspot.com

Rafael disse...

Gatos assustam.

Vinny disse...

Ah, eu gosto dos gatos, tadinhos.

Muito lindo seu texto, de uma suavidade tremenda.

Beijos.

Larissa disse...

Que lindo!
Adorei o texto, a disposição das palavras, ritmo que foram ganhando a medida que fui lendo.
Sempre faço comentários empolgados, você deve pensar que sou uma deslumbrada. Mas não é verdade, ao menos em parte.
-
Estou ansiosa pela faculdade. Medo de não passar no vestibular, por causa da concorrência. Mas enfim, acho que é parte.
E achei muito interessante você fazer teatro. Quem sabe um dia não a vejo atuando?!

Ígor Andrade disse...

Forte na sua simplicidade.
Abraço!

Cássio disse...

t dei um selo lá no meu blog

beeijo

Izabele disse...

Adorei o texto amiga!